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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Chico Buarque: Budapeste & Chapeuzinho Amarelo




Acabei de chegar da Universidade onde fui palestrante sobre tema de comparação literária: literatura infantil e literatura "adulta". Comparei as duas obras do título, Budapeste e Chapeuzinho Amarelo, ambas de Francisco Buarque de Hollanda.

Tecerei aqui somente um pouco do tapete textual que me enveredei, se alguém se manifestar por querer mais do artigo, envio por email, faço isso para não ficar muito extenso este post.

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O objetivo deste artigo é analisar a estrutura narrativa de duas obras do escritor brasileiro contemporâneo Chico Buarque, sob a perspectiva do estudo de Tzevetan Todorov sobre o tema. A partir disso, comparar a obra Budapeste, do citado autor, com a obra Chapeuzinho amarelo, dele próprio. Para alcançar tais objetivos de forma mais acentuada e dinâmica, o assunto identidade do personagem e sua perspectiva nas obras analisadas terá como pano de fundo o pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger.

Quando se trata de estrutura narrativa, há sempre a obra de Tvetan Todorov como um possível guia ou elemento a mais para nos debruçarmos. Este lingüista e filósofo búlgaro nos atrai com seu panorama diferenciado e cheio de vertentes inquietantes, portanto a obra Estruturas Narrativas (coletânea de textos publicados de 1964-1969, publicada em 1970), será nosso norte neste.

O romance brasileiro do ano de 2003, Budapeste, de Chico Buarque, tem em sua questão de tempo de narrativa uma ordenação por alternância, ou seja, a ação tem uma ordem cronológica que não segue em linha até seu desfecho, há camadas de ações em tempo diferentes; e é assim que a obra é iniciada, por uma ação que em um momento mais a frente da leitura irá se encaixar, dando compreensão total daquele ciclo narrativo. Não é o que ocorre em Chapeuzinho Amarelo, do ano de 1979, por se tratar de uma variação da fábula infantil Chapeuzinho Vermelho, utiliza da mesma questão temporal das fábulas em geral, ou seja, uma narrativa linear, com ações que se desdobram de forma cronológica, que não antecipa ou fomenta variações de entendimento, segue até seu fim do primeiro item ao último, que se expõe como narrativa acabada e completa. Diante do estudo temático, pode-se perceber que em Budapeste, o ser e suas buscas por se definir em completude irradiam o corpo do texto aos poucos, já que o personagem principal é um ghost-writter, escreve textos e obras mas não assina por elas. Neste ponto evidencia-se com sinais claros de que a violação que se instaura na obra é a de que o personagem principal não é conhecido ou reconhecido como produtor, como o autor de textos que invariavelmente têm sucesso; portanto, a busca do personagem principal é então por sua identidade, por ser observado como ser que se manifesta, que produz qualitativamente sua função na sociedade. Não há como chegarmos aqui sem mencionarmos o estudo de Martin Heidegger sobre o ser humano. Notemos; em Conferências e Escritos Filosóficos (1996 p. 8),

[...] o terceiro aspecto fundamental revelado pela análise da existência humana – a ruína – significa o desvio de cada indivíduo de seu projeto essencial, em favor das preocupações cotidianas, que o distraem e perturbam, confundindo-o com a massa coletiva. O eu individual seria sacrificado ao persistente e opressivo eles.

A partir desse ponto de compreensão sob o enfoque Heidegger, podemos notar que toda a interação do personagem principal de Budapeste com o seu meio instiga-o a ultrapassar barreiras, a transpô-las, para chegar ao final de sua jornada verdadeiramente dentro de suas potencialidades e certo de sua identidade. No caso da fábula infantil, ocorre o inverso primeiramente. Tematicamente o medo do mundo cerca a personagem principal de Chapeuzinho Amarelo, no texto é nítida a compreensão pela narrativa que existe o medo daquilo que nem ao certo sabe ela personagem se realmente existe ou não, apenas a possibilidade da existência de um lobo malévolo de terras distantes leva a personagem a trancar-se diante de si mesma, e não projetar-se diante do mundo. E este projetar-se é algo constante no ciclo narrativo de Budapeste. Ainda olhando nessa direção, podemos perceber analisando as obras, que em Budapeste, o personagem declina em direção a sua ruína aos poucos, e disso elabora formas de manter-se coeso, rochoso, até o labirinto que se encontra ir cedendo, e o deslumbre por algo melhor chegar. No caso da Chapeuzinho Amarelo a obra inicia com a personagem envolta psicologicamente em medo, e esse medo é percebido em suas atitudes:



[...] Era a Chapeuzinho Amarelo / Amarelada de medo / Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho / Já não ria / Em festa não aparecia / Não subia escada nem descia.

E quando mais densamente ela pisava no medo, mais perdida vivia:

[...] Não estava resfriada mas tossia / Ouvia conto de fada e estremecia / Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.

Adentra-se então, a partir desse trecho, no campo da angústia. Um ser que manifesta uma doença que não tem, que ouve contos e estremece, e não brinca para possivelmente não se ferir, está em um pensar subjetivo, pisando também no campo da angustia. Vejamos o que é retratado sobre Heidegger e esse seu mensurar sobre angústia, Conferências e Escritos Filosóficos (1996 p. 8),

[...] A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda. [...] O que ameaça o angustiado está em tudo e em lugar algum, ao mesmo tempo. Não se pode dizer que a angústia se aproxima ou se distancia; ela é onipresente. Por isso envolve o homem com um sentimento de estranheza radical.

Estamos então caracterizando até o momento presente a Chapeuzinho Amarelo como angustiada. Leiamos então um trecho de Budapeste, para que confirmemos por meio de parte da obra, o mesmo sentimento em José Costa, o ghost-wirtter do livro:

[...] e a cada vírgula se ouvia da esposa de José uma respiração intensa; era flagrante que, apesar de esposa de José, aquela era uma mulher abandonada, e antevendo-a em seus braços ao final da leitura, Kaspar Krabbe acelerou o ritmo. A Vanda, com efeito, estava prestes a se entregar ao alemão, e eu teria preferido não continuar imaginando semelhante cena. Todavia a cena era escura, e eu sentia prazer em escutar a respiração de Vanda, eu necessitava fruir o som das minhas palavras, na verdade eu ansiava pelo instante que a Vanda sucumbiria às minhas palavras. [...] Possesso, Kaspar Krabbe saltou sobre a mulher sem se despir, deitou-a em L no sofá em L e dessa forma a possuiu.

domingo, 11 de outubro de 2009

Låt den rätte komma in


"Deixa ela entrar". Algo imporante ocorreu neste singular filme. Normalmente eu coloco textos meus aqui, agora mensalmente. Mas como eu poderia deixar de - e mesmo que seja aos ventos do meu ser - comentar sobre esse filme? Não seria possível; assisti-o no Reserva Cultural, domingo. Para quem aprecia o bom cinema, com olhos de arte, roteiro bem acabado e um bem contar convincente sobre bebedores de sangue, esse é o filme. Um tema que parecia esgotado, com franquias no mínimo tolas sendo observadas pela massa comum, e o diretor Tomas Alfredson recoloca caninos e perspecitvas vampíricas no trilho do melhor cinema, assim como "Nosferatu", com o qual o filme já foi convergido. A sinopse podem conferir em outros sites melhor especializados, o que me clamou também atenção foi a beleza das palavras sendo pronunciadas, idioma que eu não conhecia, uma mistura de algo que a mim não acentua comparação, mas influi no querer conhecer mais e melhor.

Um adolescente solitário oferece sua companhia para a nova vizinha, ambos 12 anos de idade. Ele só a vê nas noites geladas. Nos dias gelados ele é intimidado por colegas da escola. Vidas solitárias que precisam-se mutuamente. Do diálogo curto e abafado para o olhar mais fundo no semblante alheio ao ato da cumplicidade, que vai ganhando força, ruína e aconhego. Ritos de passagem e ciclos de desespero, pois ela precisa beber sangue, e ele precisa derramar sangue dos que o intimidam. O que podemos ter diante disso no mirar de uma película? Arte, se devidamente bem cuidada. E assim foi.

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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

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