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sábado, 7 de agosto de 2010

Vôo clandestino

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_Sempre que te vejo, é como se o melhor do que já conheci nessa cidade estivesse diante de mim. Depois que ouvi essa frase decidi parar e acompanhar os envolvidos no diálogo. Livraria. Pessoas conversam. Solitários passam. Solitárias observam pessoas acompanhadas. Cheiros, discursos, risos. Ninguém ouviu a frase bela senão eu. Não perguntem o que estava eu a fazer quando os notei. De vestido preto e olhar firme a procurá-lo a meiga senhorita dirigia-se aos corredores de romances em língua estrangeira momentos antes. Os lábios talvez trêmulos dela. Olhar gentil de ambos. Nervosismo dele. Por estarem expostos ao julgar alheio, pensei. Flertes dos outros enquanto para eles estarem assim presumindo o perfume que banha a pele um do outro é nuance esperada há dias. Quem sabe? Semanas?
Cabelos envoltos em tinta mais clara do que o natural presente da vida ela olha-o firme, anotando na página da memória traços, modos e arqueios da sobrancelha e da boca. E nesta selva tão bruta e caótica as pernas dela a mostrar que há muito mais do que correria e buscas nos degraus da cosmopolita cidade paulistana.

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Sentados com livros nas mãos para disfarçar atendentes despreparados. Frases curtas de saudade quando as mãos se buscam. Enquanto o nome do hotel e o quarto são ditos entre risos, discursos e meiguices de estranhos. Segui-os. Ela sai enquanto ele paga o livro e o vinil do erudito músico russo. Ela lê algo na calçada que cruza a avenida enquanto ele caminha sereno, sapato preto republicano e blazer de tweed do reino inglês, pele pigmentada de atitude e vinho mitológico no expirar dos passos excitados.
Não perguntem o que estava eu a fazer quando antes. Tudo perdera sentido e razão. Até o clima era nada diante de tal figura de mulher. Poderia imaginar o que ocorrera depois e parar quando ela entrasse no mesmo prédio que ele entrou. Poderia voltar-me a minha função e voar para o alto de alguma construção entre cortados de nuvens cinzas carregadas de ilusão. Preferi continuar seguindo-a, a minha maneira. 

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Quando houve o reencontro dos meus olhos e os dois ele já a beijava docemente enquanto segurava-a com firmeza. Línguas contorcem tanto em momentos assim. As pernas dela contornaram a cintura quando ele pendeu o corpo. Pés delicados na bruta pele do homem. Algemas gélidas a triscar a intrigante mulher. O amante ouviu o telefone tocar e mais se despiu enquanto ela ouvia o marido atenta. Fechou o telefone rápido e acariciou as virilhas dele, ajoelhada. Que gosto teria a boca deles pensei, enquanto minhas asas ardiam no vento. Olhei ao chão do alto e percebi o clamar sincero de uma existência angustiada. Teria então na mordida do melhor momento o arranhado? Antes dos navios alheios não chegarem a costa alguma eu já seguia encantamentos de mulher. Antes de a primavera ser apenas rascunho no farol do limbo e antes dos cantos das ninfas ecoarem nas ilhas sagradas já manifestava meu vulnerável modo de proteger; meus sensuais anseios de anjo lascivo, deleitoso e híbrido.
 
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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

Eliéser Baco - direitos reservados na Biblioteca Nacional