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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lord Byron - O efeito de uma leitura

Meu gosto por leituras iniciou cedo, aos cinco anos, com o livro infantil Dia e noite, da autora Mary França e do ilustrador Eliardo França. Impressionado com os desenhos e palavras realçando o que via, não parei mais de ler, a tentar conhecer mais e mais do mundo dos desenhos e letras. Anos mais tarde, o livro que me cativou definitivamente no início da adolescência foi Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo; quando soube que ele tinha como ídolo, Lord Byron, procurei alguns poemas, com pouco sucesso.

Terminei de ler esses dias o fantástico livro "Don Juan, ou, a fascinante vida de Lord Byron", de André Maurois. Consegui uma edição antiga encontrada em um sebo "on line". Uma vez mais agradeço a oportunidade ler algo que pôde me proporcionar o tradicional efeito que somente quem aprecia leituras consegue perceber. A primeira pergunta que me fiz já no mar da leitura: poderia uma vida ter muito mais força que a própria obra de um poeta/escritor (poetisa/escritora)? Byron foi criado na Escócia, e só depois de herdar o título de Lord pôde ter uma vida sem tantas mazelas financeiras. Dizia-se que o sangue gerado da união da família Gordon com a família Byron daria ao mundo criaturas amaldiçoadas, muito disso pelo fato de antepassados terem sido um misto de insanidade e luxúria descabida. Algum sofrimento teria os esculpido assim? 
Sim!, temos duas perguntas feitas neste início de texto, cabe ao menos encaminhar um esboço de resposta. Para mim, a vida de Byron é tão grandiosa quanto as melhores obras criadas pelo Homem em todos os tempos. Um homem belo, coxo, de criação tempestuosa pela mãe aflita que abandonada pelo marido e em ruína financeira não soube dar o alento ao coração do pequeno George Gordon Byron. E disto ele necessitava. Tímido, tentado a gostar de gurias que logo partiriam seu coração, cresceu talvez não somente manco do andar, mas do devido sentir também. Não sendo amado e perseguido por alguns em razão de sua deficiência física, isolava-se. Um trecho do livro, com Byron já Lord, após ir para um renomado colégio londrino.  Tinha então 13 anos.
" Seus primeiros tempos na escola não foram felizes. Entre 350 alunos seria surpreendente que não houvesse alguns para perseguir um doente, orgulhoso e tímido por natureza. Suas pernas não tinham melhorado;..."

"Porque a sua deficiência inspirava-lhe o mêdo de ser desprezado, era orgulhoso, combativo, desconfiado. Um pouco gordo, mas de belos traços, os olhos e as sombrancelhas admiráveis, os cabelos de um louro acobreado, cacheados..."

"...Depois do mestre, os colegas, lentamente, foram vencidos pelo encanto de Byron. Encanto muito complexo, feito principalmente de uma coragem sem limites, nas palavras e nas ações..."

Ao perceber um outro menino sendo perseguido, não hesitou.

"... A séria solenidade do pequeno Peel era um tentação para os pirracentos. Ele era sempre maltratado. Um dos tiranos deu-lhe uma paulada; os golpes sucediam e Peel torcia-se de dor. Byron aproximou-se. Não era bastante forte para bater num "grande". Mas, com lágrimas nos olhos, a voz trêmula de terror e indignação, perguntou: "Quantos sôcos pretende lhe dar?" - "Por que, idiota?" perguntou o outro, "que tem você com isto?" - Porque, se não faz diferença, eu gostaria de receber a metade. Os alunos bons juízes do caráter, depois de um ano viram que aquêle colega era feito de um metal puro."

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O que foi forjado ali no menino tímido e de vibrações ora tempestivas, ora de uma coragem que mostrava todo seu melhor caráter, escondia ainda tudo que viria a praguejar e satirizar daquela sociedade, que para ele, fedia. Braçadas na direção de sua formação no colégio, braçadas também na formação do animal ferido, que muito pouco tempo depois em sua vida iria machucar amigos e mulheres que verdadeiramente queriam seu bem. Ainda assim tais trechos dignificam e tendem a responder as duas questões incitadas por mim: a) poderia uma vida ter muito mais força que a própria obra de um poeta/escritor (poetisa/escritora)? b) algum sofrimento teria os esculpido assim?


Tais respostas, gostaria de tê-las. Seria interessante receber dos que aqui visitam vez por outra. O que fica, posso dizer, depois da leitura sobre a vida de Lord Byron, é que tudo abordado ali fez centelha em recordações, em todas as direções, e muito mais ainda há de florescer desse fogo mágico advindo da literatura e das vidas dos poetas e poetisas que aprecio, que apreciamos todos. Que tenhamos muito mais nos cálices dos dias. Que a arte resplandeça numerosa diante do que existe. Que Lord Byron seja melhor memorado do que é hoje, aqui e em sua terra. 

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Crise / Fazendo? / Entre trovoadas e monstros - Parte 2 de 2


Vale-me vida. A irmã e o pai por lá. Ele no seu quarto. Jaqueta de couro rasgada por canivete de uma bela clubber. Livros pendurados onde deveria haver roupas. Costas tatuadas onde deveria haver arranhões da professora de filosofia. Escolhas tardias na fragmentada vida. O esperma já repercute no estômago da vizinha quando ele deixa a garrafa de vinho derramar nas pernas dela. Anfetaminas e álcool pobre guri não estão mais a combinar, diria a rapariga da outra rua. Olhos nos olhos, não quero ver o que você faz. Eles só estão a se entreolhar abismados com tais efeitos. Efeitos de vida, e fichas de crise, senhas de anonimato, cartões de paz, sítios eretos, carência lambuzada de cimento, humanidade e vinho caríssimo leitor, ondeante leitora. Entrem por aqui trovoadas, murmurem por aqui monstros:

Entre trovoadas e monstros

Monstros, torturadores, dilaceradores de almas. Preciso da urgência definitiva da insanidade que nos faz destruidores, incapazes do menor sinal de arrependimento ou empatia. O fim, o objetivo mais torpe. Sinfonia da demência. Sons saem das caixas como farpas entrando debaixo das unhas. O heavy metal elevado à milésima potência, os bumbos agonizando, o baixo tonitruante, a guitarra distorcendo os tímpanos, vocalista histérico, teclados demoníacos envoltos em névoas que encobrem castelos medievais. Demência, destruição… sem mais.

Papis no chuveiro bate uma pensando na vizinha, que sai do quarto do filho trôpega. O namorado da filha esquece a cueca debaixo do travesseiro dela; antes da madrugada mãe irá cheirá-la quase a cair de felicidade. Crise do que fazer nas trovoadas do cotidiano. Monstros segregados dos nossos pântanos em sonhos, atrás da vida, em você.  

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Crise / Fazendo? / Entre trovoadas e monstros - Parte 1 de 2

Lendo o blog de meu grande amigo Fabiano Queiroz, surgiu a idéia de escrever com ele uma pequena estória onde eu alinhavaria três textos dele que não tinham relação direta uns com os outros. Dividirei o resultado disso em duas partes. Meus textos em azul, textos de Fabiano em preto.

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Crise
Sexta-feira. Março, dia 19. 19 horas e 48 minutos. Onde o cansaço dá torpor, o ensurdecido coração dá arritmia. No poço igualitário dos padrões sociais, esquecidos somos. Números, grandiosos números. Fichas, cartões, senhas, divisas, arroba e hífen. Sol enraizado de inferno vivo, filas, assinaturas, sítios de informação, nomenclaturas. O passaporte do poder é a eleição no circo ensandecido e sulamericano. O cadeado abre fácil, portão range, chaveiro de metal corroído. Corroído o falar já se engana. Correntes contas de saldo no sangue negativado de doença. Passos no corredor de casa quando vê seu reflexo que inflama. Apenas se vê, dita a sentença:   

Crise significa oportunidade? Até onde?
A mente escura, o peito que dói, nada muda, tudo volta. E volta com força, sufocando e engolfando emoções e sentimentos primários. Essa vida não nos dá sequer um segundo de paz e tranquilidade. Talvez seja assim para todos, mas definitivamente,  não sei como aguento em pé.
O que será que fazemos aqui? Tudo isso é assim mesmo, essa nóia, essa coisa pernóstica,  sem nexo? A carência total e irrestrita, sentimento de competição que corrói?
Somos todos iguais? No emaranhado de emoções humanas, há espaço para positividade, ou é sempre essa guerra, essa corda-bamba, destroçando o pouco que resta das já tão diluídas relações humanas? Cadê a humanidade? Cadê a paz?

O pai disse ao reflexo que arcou as sobrancelhas. Entra e esquece, diz o reflexo. Ligue o rádio alto e coloque os fones; aliás, coloque os fones e ligue o rádio alto. Na rádio de rock está a tocar seu  nu-primal-rock preferido. Concorda com o reflexo e entra.

Eis que a princesinha do pai e seu namorado no quarto estão a ouvir o punk-final-dileóide-rock tão alto que não notam a chegada do papis. Papis deu xau ao reflexo e entrou. Poltrona cheirando a cerveja que ele nem cheirou. Pegação da princesa e o  namo:

 
Fazendo?

Fazendo o que?
Fazendo como?
Como funciona?
Funciona?
Gosta?
Goza?
Lubrifica?
Ereto
Lambuzada
Quero tudo
Tudo
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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

Eliéser Baco - direitos reservados na Biblioteca Nacional