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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Volvogrado - By E.B.

           É do olhar humilde que se lança a esperança perante todo teu esplendor, criatura renascida. 
Do longo choro daquela batalha foi consumido mais que sonhos juvenis, bençãos maternas, zelo das árvores de tua história. 

Ressoou tão nobremente tua vontade de se reerguer com novo nome, novas vestes, novos olhares do teu aprendizado daquele ciclo fatídico que derramou mais de um milhão de vidas.  

Teu rio Volga, lágrima do Mar Cáspio, foi o berço que embalou orações acalentadas pelo respirar dos que sobraram. Um dia ainda fitarei teu céu musical - Eliéser Baco.


Tem cerca de 1,3 milhões de habitantes. Fundada em 1589 com a designação de Tsarítsin, por ter se originado de uma fortaleza às margens do rio Tsaritsa. Em 1925 passou a se chamar Stalingrado, por decisão do XIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética, para homenagear o então secretário-geral do partido, Josef Stalin, por ter derrotado nesta cidade, em 1920, à frente das tropas do Exército Vermelho, o general Anton Ivanovitch Denikin, comandante do Exército Branco.
Em fevereiro de 1956, após o processo de desestalinização posto em prática no governo de Nikita Khruschov, passou a se chamar Volgogrado, por decisão do XX Congresso do Partido Comunista da URSS.
A batalha de Stalingrado teve lugar nesta cidade no inverno de 1942, com êxito do exército soviético sobre as tropas alemãs nazistas, desgastadas pelo inverno rigoroso típico da região. (fonte: Wikipedia)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Telegrama de Moscou - Drummond


 

Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.

Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
- Stalingrado: o tempo responde.

A rosa do povo / Carlos Drummond de Andrade - 40a. edição - Rio de Janeiro:
Record, 2008

Volvogrado - antiga Stalingrado

sábado, 29 de outubro de 2011

Olhos redondos

"Nobody knows, the morning son has rose" - 
"Ninguém sabe, o filho da manhã floresceu" - Beady Eye

         A chave está torta novamente, e a porta até há pouco aberta, trava mais que partituras e sonhos do outro lado. Tudo parece conspirar para dias estranhos. Deixe estar, volte para a chuva noturna e junte-se aos seus cansaços. Incomodar quem quer que seja soa como uma frase cheia de vírgulas explicativas, duvidosas; deixemos todos dormirem, feche o zíper da jaqueta de Manchester, acenda o último cigarro de sua vida e caminhe ao relento.

Poderia anotar mentalmente placas suspeitas, procurar lápis e papel perdidos nas vielas acadêmicas e escrever mais um refrão, de rock tradicional, por favor. Não é somente na luz que nos encontramos, lembre-se, certas penumbras nos servem, ainda que sejam somente para podermos mergulhar olhos redondos e voltarmos refeitos para o lar. 
         Não importa o quão velha aquela guitarra pareça, é do som da verdadeira família que se lembra ao carregá-la nos braços, é o timbre do melhor de si. Tentar explicar aos filhos do capitalismo isso é como esclarecer ao humorista tolo como é bonita a voz da tristeza, vez por outra. 
Ao lerem, se procurarem um personagem definido, é porque não se encontraram em parte alguma de certas frases, e isso encerra o parágrafo de alguns dias vividos.

Quando um homem sincero e zeloso sente-se trancado para fora de qualquer porta, com seus sonhos esclarecidos no chão ou no breve sono do poeta, é porque o diálogo com o mundo parece corrompido de algo. 

E ele, que entortara a chave inicialmente e saíra a caminhar pela madrugada repentina, entorna os olhos redondos para algumas árvores, a ouvir o ruído do vento em alguns galhos, quase como um chamado, ou um lamento, ou próprio enternecimento por um segundo a mais de arte e compreensão. 

Deixe estar, recolha-se da chuva noturna e procure aquele abraço.

Texto: Eliéser Baco
......
Obs: Se preferir, leia ao som do que inspirou este.


domingo, 16 de outubro de 2011

Crime e Castigo - Dostoiévski

           Algumas obras e nomes estarão sempre ao redor das escrivaninhas. Em dia chuvoso como este, talvez mais. Sou dado às leituras desde a infância, e sempre ouvi falar do tal russo autor de "Os Irmãos Karamazov". Sempre soa como algo definitivo algumas leituras; é algo definitivo conhecer Fiódor Dostoiévski, ainda que não se goste tanto quanto se alardeia. Cada linha desta obra, que intitula a postagem, é como silvo de cobra pra mim. Desde as frases mais curtas, que direcionam o local onde estão as personagens, até os sentidos mais amplos e profundos, onde se delimita o rememorar de uma cançaõ realmente vivida pelos homens que percorrem a estória ou a dinâmica psicológica do protagonista.


É um tropeço distinto no infortúnio conhecer e se permitir levar por esta maravilhosa obra.
Eis um trecho (tradução de Rosário Fusco.-São Paulo: Abril, 2010 - Clássicos Abril Coleções; volume I, página 29), portanto: 


"Vivia numa miséria tão deprimente que eu, que estou cansado de assistir a dramas de toda espécie, não poderia descrever o dela. Seus pais abandonaram-na completamente. Aliás, ela era orgulhosa, orgulhosíssima... Foi então, cavalheiro, que eu, como disse, igualmente viúvo, tendo do meu primeiro casamento uma menina de quatorze anos, foi então que lhe ofereci minha mão, porque não podia vê-la sofrer assim. 

Poderá julga sua miséria, considerando que, instruída, culta e de excelente família, aceitou-me como marido... Ela o fez chorando, soluçando, torcendeo as mãos, mas casou. Porque não tinha para onde ir... Entendeu, entendeu bem, cavalheiro, o que significa não se ter mais para onde ir? Não, ainda não poderá compreendê-lo... E durante um ano inteiro eu cumpri, honesta e santamente, o meu dever, sem tocar nisto (apontou com o dedo a meia garrafa que estava na frente), porque tenho sentimentos."

terça-feira, 11 de outubro de 2011

É Copa, é voto, é nação.

           Bem-aventurados os que tem refeição, pois há um continente faminto. Bem-aventurados os que ignoram isso e continuam com suas febres por anexar mais e mais produtos, coisas e palácios. Há remédios estragados sendo ingeridos por alguns, há mães abrindo as pernas por um prato de comida aos filhos. Há vielas de comidas nos sonhos das crianças, há tanta música pestilenta rondando as capitais financeiras e há tanto que fazer por um mundo devastado da verdadeira missão.

E todas essas palavras são consideradas inúteis por aqueles cujas profissões denotam poder e "status".

Bem-aventurados os que demonstram nojo dos que não são brancos ou ricos; estes terão união estável com os baixos mundos. E ainda que os nomes dos sacerdotes das maiores religiões sejam chamados nos cultos, ritos e templos, nenhum cálice de ouro é derretido para saciar a sede dos que perecem catando no vento alguma gota de chuva para dar na boca de suas crias.

Aumentarão as populações enquanto os recursos naturais se esgotam. Porém, não tema, assista a vida dos outros na tela e tudo ficará bem; vote naquele programa preferido e esqueça o que há além mar, o importante é o carnê que precisa ser quitado, é a bonança de poder perceber que tens mais que teus vizinhos, que teus colegas de trabalho e estudo.

Bem-aventurados os que pensam pelos outros e não tem discernimento sobre a dádiva do existir, pois, estes não terão a consciência abolrroada quando a última tempestade vier.  Ainda bem que existem os narradores, os apresentadores, pois, sem eles, muitos teriam que ler jornais, livros, cruzar informações sobre teorias chatas demais para se perder o tempo. Os apresentadores e narradores, com seus penteados e roupas bem cortadas direcionam o pensar, o agir, o consumir e isso facilita tudo, amém.

Há um continente faminto, mas eles não são brancos, eles fedem, eles são preguiçosos, os antepassados foram vendidos como escravos e os sobrenomes não são europeus, então o que importa não é mesmo? Lá vem a bunduda rebolando, a chuteira driblando, a modelo de biquini na piscina mais aguardada dos verões, e isso sim, é vida!

Dizem que as frases foram dispostas confusamente, na forma tal qual labirinto n'água escura.
Pois, não serão mais. Serão como faca no umbigo da criança de todos os continentes.

Alguns pedem dez por cento de ti para honrar o templo, pagar certas despesas, sabe cumé, irmão, domesticar bárbaros e tirar deles inclusive, dez por cento.

Cinco por cento de comida aos pobres é muito? Cinco por cento de verdade para quem dorme no leito contigo? Cinco por cento de dedicação na tua evolução?

E quem rodopia no ar pedindo atendimento digno para o avô decrépito na calçada da famosa morte, corresponde a cinco por cento do Criador? Afasta de mim este cálice, de copa, voto e nação.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Menino do mato - Manoel de Barros

Segunda Parte - Caderno de Aprendiz

14 [página 51]
Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono.

17[página 57]
Eu não sabia que as pedrinhas do rio que eu guardava no bolso fossem de posse das rãs.


23 [página 69]
Tenho o privilégio de não saber quase tudo.
E isso explica
o resto.

27 [página 77]
Eu vivo no meu relento.
............

Nascido em Cuiabá em 1916 este poeta. Como duvidar da força da palavra ao conhecer melhor a obra dele? É vasto o campo dos sonhos e das belas imagens, ainda que em curtas frases. Meras frases, do saber inocente do poeta,  astuto e esteta do sentir. Livro que foram retirado tais ventos: Menino do mato, edição de 2010 - Ed. LeYa.

E tantos escrevem tantas folhas, sagas de tantos livros, sem conseguir alcançar a simplicidade nobre deste poeta.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Percy Shelley (1792 - 1822)

Shelley, marido de Mary Shelley (autora de Frankstein), grande amigo de Byron. Poetas de uma mesma época e diferentes vertentes. Ao lado de Keats, considerados os três maiores poetas românticos ingleses.

É difícil achar obras desses caras em publicação brasileira. Adquiri uma edição de Lisboa, curta, suscinta, porém, dá margem para saber da importância deles. Editora Relógio D'Água.

Na edição, de 1992, logo de início descrevem: "Percy Shelley deixou uma poesia "marcada de uma envolvente sensualidade intelectualizada" (Fernando Guimarães).  Shelley foi cremado na praia de Viarregio onde o seu cadáver dera à costa após naufrágio, numa cerimónia presidida pelo seu amigo Byron.


Então fica um trecho de poema de Shelley:

ADONAIS
Elegia à morte de Keats

1

É por Adonais que choro - ele está morto!
Chorai por Adonais, ainda que as lágrimas
não libertem do gelo essa cabeça amada!
E tu, Hora tão triste, a única escolhida
para nela chorarmos, desperta as tuas obscuras irmãs,
ensina-lhes essa dor e diz: << Comigo
morreu Adonais, e até o Futuro
esquecer o passado, o seu destino e glória
serão um eco e uma luz para sempre.>>

2

Ó poderosa Mãe, aonde tu estavas
quando caiu teu filho, com as setas
vindas da noite? Aonde ficaste, Urânia, abandonada
quando Adonais morreu? De olhos velados,
entre os Ecos despertos, ela permanecia
no seu Paraíso. Alguém, com amoroso alento,
despertava as melodias adormecidas,
com as quais - flores caídas num sepulcro - veste e oculta a ameaça próxima da Morte.

......
Poesia Romântica Inglesa
Tradutor: Fernando Guimarães
Ed. Relógio D'Água, 1992.

domingo, 4 de setembro de 2011

Incógnita



Uma hora e 23 minutos. Nossa conversa durou isso.
Como fiquei chateado quando saiu pela porta da sala às nove horas e 7 minutos do último dia daquele mês.

Nem um até breve. Uma noite sem igual, cada qual sente como.. não sei mais.
Eu parecia o que? Poeta? Um dominador sexual em causa própria?
Fiquei a pensar sobre o que transmiti e o que sou perante teus olhos castos.


Um adágio serviria para me elucidar dos dias sem notícias tuas. E não elucida.
Nada elucida este querer, ter o abraço de alguém que não dá pistas.
Daria?.. não sei mais.



 Um poema escuso, um conto sensual, com o zelo que me detém aqui, na espera de tuas mãos castas. 


Merecerias flautas soando com pianos quando recordasse de nós. Isso é bom? Esperar na arte por teus pés castos a envolver minha cintura? 
 


Casta.
Alguém deveria te avisar,
Sobre tudo que envolve a palavra,
Todas as incógnitas que devem ser desfeitas. Não somos óbvios.
Alguém deveria te avisar da minha espera. 

Passagem da Noite - Drummond

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.

Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite.
é perfeitamente noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.

Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, as posses das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.

Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

..................
Carlos Drummond de Andrade.
Livro: A rosa do povo.
40a. edição - Ed. Record - 2008.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Inesperado






E ele então disse: 
"temos tudo para sermos algo avassalador um na vida do outro";
e ouviu dela: 
"essa possibilidade me atrai deveras..."

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Horla - de Guy de Maupassant

             O escritor e poeta francês, Henry René Albert Guy de Maupassant, escreveu em torno de 300 contos em seus 43 anos de vida. Nascido em agosto de 1850 no norte da França, teve em seu conto, O Horla, uma de suas obras primas.

O Horla inicia como muitos outros deste período a tratar de assuntos fantásticos, é um relato, é algo que tende a parecer verdade por trazer das sombras do texto, personagem que pretende elucidar e contar algo de muito vulto que teria vivido.

O conto inicia a tratar do doutor Morrande, ilustre diretor de casa de saúde, que cuidava de loucos. Manda então chamar "três dos seus colegas e a quatro sábios, que se ocupavam das ciências naturais", para conhecer um de seus internos. Relata aos mesmos que não falará do doente pois o mesmo o fará para todos; pede então para um funcionário o trazer.


                                   É definitivamente um excelente conto, sob qualquer tema em qualquer categoria de estilo que se possa ler ou analisar. Não sou um especialista em contos fantásticos, e como leitor assíduo tento mostrar aqui objetos de arte de pessoas que admiro, e este conto no meu entender, se enquadra nisso.


No fim, a sensaçao de que a teoria do tal louco é uma possibilidade verdadeira, visto que ele descreve algo invisível que está a observar as pessoas, torna tudo mais interessante e prático. Relato envolvente de um louco escritor que teria realmente vivido aquilo? Insensatez lúdica de maestria textual? Cada um que ler ou que tiver lido, por favor, elucide-me.

O conto foi feito em uma primeira versão, de 26 de outubro de 1886 e uma segunda, de 1887.
O trecho a seguir é da primeira.
..................-


         Emagrecia de forma inquietante, contínua; e percebi, subitamente, que o meu cocheiro, que era muito gordo, começava a emagrecer como eu.

Por fim, perguntei-lhe:
"O que é que você tem, Jean? Está doente?"
Ele respondeu;
"Acho que peguei a mesma doença que o senhor. São as minhas noites que arruínam meus dias".

Pensei então que havia na casa uma epidemia de febre, devido à proximidade do rio, e estava a ponto de me afastar por dois ou três meses, embora estivéssemos em plenta temporada de caça, quando um pequeno fato muito estranho, observado por acaso, conduziu-me a uma tal cadeia de descobertas inverossímeis, fantásticas e apavorantes, que decidi ficar.

                    Uma noite, tendo sede, bebi meio copo d'água e notei que jarra, colocada sobre a cômoda em frente da cama, estava cheia até a tampa de cristal. Durante a noite, tive um desses sonos terríveis de que acabo de lhes falar. Acendi uma vela, cheio de angústia, e, quando quis beber de novo, percebi estupefato que a garrafa estava vazia. Não podia acreditar nos meus olhos. Ou tinham entrando no meu quarto, ou eu era sonâmbulo.

(Coleção L&PM Pocket, 2006.)
.............

Para saberem mais dele: Uol Educação

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha,
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quanto o tem na mão.

Manuel Bandeira - do livro Belo Belo (poesias reunidas. 1980, 8ªedição)


domingo, 21 de agosto de 2011

You're so Right

              Acho que a música algumas vezes representa alguns de nós. Incredulidade, paixão rasteira ou exacerbada, temor, sentimento de culpa, solidão ou desejo freado por algo ou alguém. Por isso fico atento às variadas manifestações que ouço do jazz a Mpb, do rock ao erudito. Depois de ouvir uma música chamada "Games" (álbum Angles), da banda de Nova York "The Strokes" e ter uma interpretação própria da fase convergente da música deles, essa outra música -  que dá título ao post -  também me fez repensar as letras e caminhos da atualidade.

           Em "Games", se inicia assim: "Com todo o barulho por cima, ele tentou chamar seu nome, o julgamento iria continuar, o dia está apenas começando! Vivendo em um mundo vazio, vivendo em um mundo vazio!"

O início com sua sonoridade levando a introspecção a mensagem da voz é única: um leve caos. E termina dessa forma: "Eu estou ok, estou estou bem. Eu estava fora tarde noite passada, mundo vazio, mundo vazio, eu vou esperar mais uma noite."

A redenção esperada dá lugar a mais campos e vales de fragmentação atual, a voz termina em tom alto e a beira do espelhamento com sua própria sombra, segundo minha interpretação, course.




................



             Em "You're so right", (álbum Angles), o instrumental já inicia o caos que parece desembocar do rio tímido de "Games" fortemente no mar da letra: "Diga-me o que aconteceu, se você gosta, saia no mesmo chão, toda noite. Quais as razões para cair, quero dizer a você.... nada. Menina, eu estou on, qualquer momento menina, eu quero em qualquer cidade. Estou cansado do escritório. Ola floresta, eu ainda quero lhe perguntar, algo mais."

Uma espécie de mensagem conturbada se faz no torto caminho da voz a tentar dizer algo entrecortado de  angústia. Se podemos dizer algo objetivamente o que nos faz mascarar a dor que precisamos expor a outro?

A letra continua...: "Não quero lutar, não quero isso baby, você e eu; eu não quero discutir, se você quiser.. Eu não iria machucá-la, bem, talvez eu te machucasse, se eu pudesse."

O histórico dos tais roqueiros é de segurança social (não vieram do submundo) e uma visão ampla daquilo que fazem na música, nisso, parece que há um nítido interesse de levantar algo do lago que eles escolhem retirar essas duas letras, que parece, poderiam seguir um caminho uno se fossem partes de um conto ou poema.

Um caos diário, uma luta diária, um caminhar sob as águas da conturbação se fosse personagem de algo, na realidade cada vez mais nebulosa do que cerca o futuro como um todo. Sim, se é verdade, você está tão certa.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Chuva Peregrina - Novo Endereço

Olá amigos. 

               O "Sêmen" (mini-saga), projeto textual que hoje conta com três autores (Fabiano Queiroz, Keila Costa e minha pessoa), está se mudando. O nome do blog, continua o mesmo, Chuva Peregrina, molhando no Blogger agora também. 

 As duas primeiras partes, "Origens" e "Solidão" continuarão permanentemente no sítio de informação antigo, mas daqui pra frente, os próximo arcos estarão neste endereço (só clicar)

Confesso que gosto muito do visual do wordpress, mas achamos que era hora da peregrinação seguir rumo. 

           O próximo arco, "Poder", já teve o primeiro capítulo publicado, vamos escrever sobre o que nos move, nos incomoda, nos tira do sério ou do ar!?

A publicação continua do mesmo jeito, uma por semana, e depois do sétimo capítulo, um novo arco, com novo tema.

            Acompanhe-nos, se exponha, cada tema, cada autor, destila, dialoga com outro, reverbera o comentário, engrandece o movimento dessa alegoria tão promissora, essa Chuva Peregrina.


domingo, 31 de julho de 2011

Winter Largo


Preciso a cada ciclo passear de novo por tuas ruas. 
Por tuas praças, recordar dos amigos,
recordar o que é saudade contemporânea presa no peito antigo.
               
Árvores das minhas sementes, estalos de passos no meu presente, 
querendo voltar aos degraus que acompanhei o perfume gesticular, descer, mirar-me sem pressa... aqueles olhos das Noites de Lyon, safira.


                Repousam tuas mãos noutro molde, noutra escultura. 
Anjo meu, avistei o vazio esperando teu tormento interior enquanto não me via. 
Tempestade única, teu abraço. Que dirá o mais do gosto que não se despede...

Escrito após ouvir adágio de Vivaldi - by Eliéser Baco 

terça-feira, 14 de junho de 2011

Auditores

Eliéser Baco---------------- Marco Antonio
(Auditores)

Eliéser Baco (vocal, composição da música "Quatrilho", letra e melodia; 
Marco Antonio (guitarra, produção, composição das músicas "Nova Era" e "Eu Ao Mundo", letra e melodia)

Colaborações: Aldo Jr (bateria); Samuel Rodrigues (contra-baixo)

Canais de contato: 



Obrigado pelo apoio! Auditores é rock!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Uma saudade


Muito difícil compreender-me.
Assim do jeito que se foi, o quanto dói
Riu para mim ao recordar de algo?
Indo pra casa o telefone está mudo.
Agora é tarde agora esse segundo?
Névoa do passado cai sobre mim
Enquanto eu reverbero seu nome...

Sêmen – Primeira Parte – Cap. VII

Fim do primeiro Arco de 7 capítulos de Sêmen.
Inicialmente terão 7 arcos, mas, ainda precisaremos definir e talvez redefinir algo Fabiano de Queiroz e este que vos e escreve.

Ainda estamos a procura da tal senhorita, ou tais, que queiram e possam e tenham capacidade de afunilar idéias para dar a sensibilidade feminina em alguns textos.

Trecho de cada texto do Capítulo 7 (Parte 1) abaixo.
...........


ILUSÃO COMPARTILHADA
VII
Partimos nós, em intensidade, rumo aos mais distantes pensamentos sobre o que nos faz humanos, sobre os processos cognitivos e as faculdades mentais, essas que elaboram atrocidades, desvarios e desmandos. Humanos somos, e por isso, selvagens mais que tudo,(...) - Fabiano de Queiroz
Caríssimo, embora discordemos opiniões, manifestamos continuado diálogo. De ilusão sempre fomos cercados. Da brusca caminhada em direção aos pólos, aos ares, às pernas de uma Srta de rústicos desejos; o que se compreende por fraternidade não existe de fato, somente a meu ver, e em parte, (...) - Eliéser Baco
..........



quinta-feira, 5 de maio de 2011

Machado de Assis

QUANDO ELA FALA
Machado de Assis


Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.

Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.

Pudeste* eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.

Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Horas Ociosas


      
       Daquele poeta inglês recordo pouco. Mancava bem mais nas noites de lua cheia. Ria leitor, é anedota tola minha. Mancava sempre. Nadava como poucos o pálido ser. Amava muito e muito rapidamente também. Discursava melhor depois do vinho, discursava entusiasmado por demais nas noites de luas cheias. Está bem, isso é verdade. Talvez o fizesse para regalar os sombrios desejos  por estórias lendárias. 

         Da última vez que conversamos com ele ainda lúcido, foi marcante. Um cavalo assustado com o olhar esbugalhado do poeta acertou-me um golpe forte na testa. Acordei com duas srtas cuidando de mim a pedido dele, pedido formal, por escrito, em nome da honra, em nome das ninfas de outrora, das ninfas que elas desejavam ser. Deixou-me outro cavalo como presente e um poema satírico sobre minha testa marcada. Uma despedida diferente, diria.

Pois cada hora que passa é de um estilo por aqui que vale-me muito mais do que já imaginei ébrio nas tavernas que passei. E que adormeci.

         Melhor depois do vinho, depois das recordações dos amigos, imortais tesouros. Cada hora que passa ja me recordo ébrio, com tal estilo, por vezes febril, que as srtas até me acordam para beijar mais nas horas ociosas.

domingo, 10 de abril de 2011

O Gárgula

A cada olhar meu que não compreenderam, visto que a publicidade está mais na cabeça deles do que puderam perceber... 

eu não posso entregar aquilo que a mídia diz que as pessoas devem querer; e elas querem aquilo que se move diante da tela. Querem isso. E não um ser ultrapassado como este que escreve. Eu me sinto melhor assim. Definitivamente.

tem momentos em que preciso me enxergar como devidamente sou. E então reconheço que ja estive nas alturas, preso nos prédios antigos, acima de todos, pretificado. E que desci, depois de pedir para respirar, pois invejava alguns traços da vida ocidental. 

E percebi que o realmente necessário não é seguir o senso comum, não é ter somente o poder que está na ação de adquirir algo... de fazer tudo para conquistar algo que não está dentro do nosso verdadeiro e derradeiro sonho.

e o sonho? senão um devaneio inspirado pela sensação que tenho agora de não ser mais um gárgula. petrificado antes, para espantar espíritus ruins. e agora respirando, sendo atingindo por alguns. 
deixo o poeta me descrever e a musa me entorpecer com seus possíveis beijos?
alguém poderia responder?

ainda que meu sorriso não seja belo, quando eu sorrio ao espelho eu percebo as notas de minha alma e sua força. Todos então devem ver também não? 

volto aos antigos prédios ou banho-me no vento deste respirar?
alguém poderia responder?
O Gárgula

quinta-feira, 31 de março de 2011

Poema de Sete Faces

POEMA DE SETE FACES - Carlos Drummond de Andrade.-

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.


O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Gauche

             Não teremos uma trilogia de textos sobre caçadas e rumos  tempestivos. Não teremos um arcar das costas de alguem que pulará muros alheios. Domar seja lá o que for por qualquer coisa que valha a empreitada. Lançemos navio n'água, todos a carga da consumação da noite nas ondas mais devastadoras. 

Os olhos estão empoçados d'agua, leitor.

Nada de fios poéticos iluminando o quarto em penumbra. Ou riscos na parede a serem escritos nomes em estilo antigo. Pés gelados, pouca ventilação, mofo, coisa caindo sem pestanejar. Risos inexistentes sendo ouvidos na janela.
Os olhos miram o nada, nada envolta, leitora.

Não teremos os amigos se confraternizando na entrada daquela praça tão bem visitada no outono do passado. O vinho da vida seca a cada remada contra essa maré contemporânea. Eu remei tanto e tanto que me faz lembrar das canções das tavernas de Constantinopla. Dos versos do Carlos, aquele gauche magnífico com as palavras. 

Os olhos secaram empoçados do nada. Envolta estão...

Eu guardo um mar tão incontrolável no peito, que me vou, ainda que precise assinar essa carta tão trôpega,  tão desdenhada do melhor que eu poderia viver. O navio não atracará nesse pulo no abismo que se abre o oceano.

        
         Não me empurre leitor, não caçoe leitora, os olhos irão empoçados de vontades, irei sempre à esquerda, canhoto que sou, empunhar a pena, na solidão de nada entristecida, gesticular idéias no papel, me vou, cair no abismo tentador... a remar contra o senso contemporâneo, gárgula que outrora petrificado, vivo, desenvolto de cimento e pó, a soltar os poemas todos e derramar o cálice, vida adentro.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Canto I - A Divina Comédia

Da nossa vida, em meio da jornada,
    achei-me numa selva tenebrosa,
    tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era a cousa tão penosa,
     desta brava espessura a asperidade,
     que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais que acerbidade;
     mas para o bem narrar lá deparado
     de outras cousas que vi, direi verdade.

- Dante Alighieri.-
 A Divina Comédia; em italiano: Divina Commedia.
Originalmente Comedia, mais tarde batizada Divina, por Giovanni Boccaccio.
Poema épico, dividido em três partes: Inferno, Purgatório, Paraíso.
O poema chama-se Comédia não por ser engraçado mas porque termina bem. Era esse o sentido original da palavra comédia, em contraste com a Tragédia, que terminava, em princípio, mal para os personagens.

Fonte: Wikipedia

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

33 verões

Oficialmente eu nasci de manhã, chorei, estapeei o médico que me chaqualhou e fui para o cólo de minha mãe.

 Oficialmente tenho 33 árvores plantadas, um livro escrito e ainda não publicado, 5 bandas no meu curriculum de vocalista, um divórcio que me fez evoluir, uma coleção de coisas nada "a ver", dois telemóveis e somente um funciona. 

EXTRAOficialmente pouco pode se dizer? Arte é o que se constrói durante um momento de epifania ou a própria grandeza de ainda estar aqui, respirando, lutando, evoluindo?
Sinto-me bem por ainda fazer parte do mundo excluído dos que acreditam na arte. Seja a de estar vivo ou de em momentos derradeiros escrever ou sentir algo poemático, de nada sistemático, de tudo parecido com minha própria essência que dizem é bonita, de perto. -(risos)-.

Agradecer ao Grande Arquiteto do Universo por minhas lutas, as que me machucaram tanto e me rasgaram cem vezes antes de me deixar fatigado de aprender na dor. Na ruína sabemos o que é essencial na vida; por isso, um abraço a todos aqueles que me deixaram entusiasmado por estar vivo, por ser e antes de qualquer coisa nesta empreitada bem elaborada por quem quer que seja, SER, ainda que doa, ainda que necessário seja permanacer excluído do ritmo da maioria.
E a honra do agir espero que seja predominância quando lembrarem de mim todos os que por devida importância possam ter passado por minha vida, de 33 verões, oficialmente.

Não sou o supra-sumo da gostosura, é, eu tenho consciência. (risos)

Não sou nada daquilo que a maioria busca, e sinto-me encantado por isso. No ritmo dos meus verões, está o passo futuro, a liberdade de ser quem eu sou, independente do olhar alienado alheio.

Obrigado por fazerem me sentir amado e bem quisto, todos aqueles que neste texto conseguirem se encontrar e se ver, de alguma forma.

02 de fevereiro de 2011 - meu aniversãrio de 33 anos.
Fraternidade, igualdade, liberdade; honra, gratidão, sabedoria; saúde, paz e harmonia. - a todos nós.-

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Vento Peregrino

              E é quando desligam-se os motores, quando a chuva cessa, quando a lua torna e os pássaros se recolhem; os ruídos atrofiam pormenores das vozes devastadas por ignorância e fel...

             E é quando os sons equiparam-se a turbilhões sem sentido da massa que vende a alma e range os dentes; quando o violino cala e o olhar quer ver as marcas do que tem vestido e despido,

nestes raios de instantes que sou Vento Peregrino, afasto-me como se nunca tivesse existido, sorriso a boca, vinho nos lábios, barba por fazer, cabelos sem regra, destino nas mãos, excitação incontida, e sigo a peregrinar pelos cabelos envoltos a olhar seco, alma seca, e sua essência a não me querer
por aqui, por lá, por canto algum. Caminho como Vento Peregrino que sou... enfim, sábio.-

Eliéser Baco - epígrafe de um próximo livro, que ainda não decidi formato, luz ou estilo, que talvez conte mais sobre Mr. Chivalry e os InVerNais, que estiveram brevemente por aqui em 7 curtos capítulos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Tabacaria - Fernando Pessoa

Escrito em 15 de janeiro de 1928. Início de figurar simples, para aos poucos ir dando traços profundos. Afirmações do grão de areia olhando o céu estrelado? Afirmações do pó lunar olhando o planeta azulado? Cigarros, charutos e fumos em geral no título. A fragmentação do ser se vai na fumaça esbranquiçada... Não há duvida sobre a força das linhas desse poeta lusitano. Serve este como reflexão mais do que informação: não há dúvida do amante da arte escrita precisar beber versos dele.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,



E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


 (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


 Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
 
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

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