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sábado, 29 de outubro de 2011

Olhos redondos

"Nobody knows, the morning son has rose" - 
"Ninguém sabe, o filho da manhã floresceu" - Beady Eye

         A chave está torta novamente, e a porta até há pouco aberta, trava mais que partituras e sonhos do outro lado. Tudo parece conspirar para dias estranhos. Deixe estar, volte para a chuva noturna e junte-se aos seus cansaços. Incomodar quem quer que seja soa como uma frase cheia de vírgulas explicativas, duvidosas; deixemos todos dormirem, feche o zíper da jaqueta de Manchester, acenda o último cigarro de sua vida e caminhe ao relento.

Poderia anotar mentalmente placas suspeitas, procurar lápis e papel perdidos nas vielas acadêmicas e escrever mais um refrão, de rock tradicional, por favor. Não é somente na luz que nos encontramos, lembre-se, certas penumbras nos servem, ainda que sejam somente para podermos mergulhar olhos redondos e voltarmos refeitos para o lar. 
         Não importa o quão velha aquela guitarra pareça, é do som da verdadeira família que se lembra ao carregá-la nos braços, é o timbre do melhor de si. Tentar explicar aos filhos do capitalismo isso é como esclarecer ao humorista tolo como é bonita a voz da tristeza, vez por outra. 
Ao lerem, se procurarem um personagem definido, é porque não se encontraram em parte alguma de certas frases, e isso encerra o parágrafo de alguns dias vividos.

Quando um homem sincero e zeloso sente-se trancado para fora de qualquer porta, com seus sonhos esclarecidos no chão ou no breve sono do poeta, é porque o diálogo com o mundo parece corrompido de algo. 

E ele, que entortara a chave inicialmente e saíra a caminhar pela madrugada repentina, entorna os olhos redondos para algumas árvores, a ouvir o ruído do vento em alguns galhos, quase como um chamado, ou um lamento, ou próprio enternecimento por um segundo a mais de arte e compreensão. 

Deixe estar, recolha-se da chuva noturna e procure aquele abraço.

Texto: Eliéser Baco
......
Obs: Se preferir, leia ao som do que inspirou este.


domingo, 16 de outubro de 2011

Crime e Castigo - Dostoiévski

           Algumas obras e nomes estarão sempre ao redor das escrivaninhas. Em dia chuvoso como este, talvez mais. Sou dado às leituras desde a infância, e sempre ouvi falar do tal russo autor de "Os Irmãos Karamazov". Sempre soa como algo definitivo algumas leituras; é algo definitivo conhecer Fiódor Dostoiévski, ainda que não se goste tanto quanto se alardeia. Cada linha desta obra, que intitula a postagem, é como silvo de cobra pra mim. Desde as frases mais curtas, que direcionam o local onde estão as personagens, até os sentidos mais amplos e profundos, onde se delimita o rememorar de uma cançaõ realmente vivida pelos homens que percorrem a estória ou a dinâmica psicológica do protagonista.


É um tropeço distinto no infortúnio conhecer e se permitir levar por esta maravilhosa obra.
Eis um trecho (tradução de Rosário Fusco.-São Paulo: Abril, 2010 - Clássicos Abril Coleções; volume I, página 29), portanto: 


"Vivia numa miséria tão deprimente que eu, que estou cansado de assistir a dramas de toda espécie, não poderia descrever o dela. Seus pais abandonaram-na completamente. Aliás, ela era orgulhosa, orgulhosíssima... Foi então, cavalheiro, que eu, como disse, igualmente viúvo, tendo do meu primeiro casamento uma menina de quatorze anos, foi então que lhe ofereci minha mão, porque não podia vê-la sofrer assim. 

Poderá julga sua miséria, considerando que, instruída, culta e de excelente família, aceitou-me como marido... Ela o fez chorando, soluçando, torcendeo as mãos, mas casou. Porque não tinha para onde ir... Entendeu, entendeu bem, cavalheiro, o que significa não se ter mais para onde ir? Não, ainda não poderá compreendê-lo... E durante um ano inteiro eu cumpri, honesta e santamente, o meu dever, sem tocar nisto (apontou com o dedo a meia garrafa que estava na frente), porque tenho sentimentos."

terça-feira, 11 de outubro de 2011

É Copa, é voto, é nação.

           Bem-aventurados os que tem refeição, pois há um continente faminto. Bem-aventurados os que ignoram isso e continuam com suas febres por anexar mais e mais produtos, coisas e palácios. Há remédios estragados sendo ingeridos por alguns, há mães abrindo as pernas por um prato de comida aos filhos. Há vielas de comidas nos sonhos das crianças, há tanta música pestilenta rondando as capitais financeiras e há tanto que fazer por um mundo devastado da verdadeira missão.

E todas essas palavras são consideradas inúteis por aqueles cujas profissões denotam poder e "status".

Bem-aventurados os que demonstram nojo dos que não são brancos ou ricos; estes terão união estável com os baixos mundos. E ainda que os nomes dos sacerdotes das maiores religiões sejam chamados nos cultos, ritos e templos, nenhum cálice de ouro é derretido para saciar a sede dos que perecem catando no vento alguma gota de chuva para dar na boca de suas crias.

Aumentarão as populações enquanto os recursos naturais se esgotam. Porém, não tema, assista a vida dos outros na tela e tudo ficará bem; vote naquele programa preferido e esqueça o que há além mar, o importante é o carnê que precisa ser quitado, é a bonança de poder perceber que tens mais que teus vizinhos, que teus colegas de trabalho e estudo.

Bem-aventurados os que pensam pelos outros e não tem discernimento sobre a dádiva do existir, pois, estes não terão a consciência abolrroada quando a última tempestade vier.  Ainda bem que existem os narradores, os apresentadores, pois, sem eles, muitos teriam que ler jornais, livros, cruzar informações sobre teorias chatas demais para se perder o tempo. Os apresentadores e narradores, com seus penteados e roupas bem cortadas direcionam o pensar, o agir, o consumir e isso facilita tudo, amém.

Há um continente faminto, mas eles não são brancos, eles fedem, eles são preguiçosos, os antepassados foram vendidos como escravos e os sobrenomes não são europeus, então o que importa não é mesmo? Lá vem a bunduda rebolando, a chuteira driblando, a modelo de biquini na piscina mais aguardada dos verões, e isso sim, é vida!

Dizem que as frases foram dispostas confusamente, na forma tal qual labirinto n'água escura.
Pois, não serão mais. Serão como faca no umbigo da criança de todos os continentes.

Alguns pedem dez por cento de ti para honrar o templo, pagar certas despesas, sabe cumé, irmão, domesticar bárbaros e tirar deles inclusive, dez por cento.

Cinco por cento de comida aos pobres é muito? Cinco por cento de verdade para quem dorme no leito contigo? Cinco por cento de dedicação na tua evolução?

E quem rodopia no ar pedindo atendimento digno para o avô decrépito na calçada da famosa morte, corresponde a cinco por cento do Criador? Afasta de mim este cálice, de copa, voto e nação.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Menino do mato - Manoel de Barros

Segunda Parte - Caderno de Aprendiz

14 [página 51]
Eu sustento com palavras o silêncio do meu abandono.

17[página 57]
Eu não sabia que as pedrinhas do rio que eu guardava no bolso fossem de posse das rãs.


23 [página 69]
Tenho o privilégio de não saber quase tudo.
E isso explica
o resto.

27 [página 77]
Eu vivo no meu relento.
............

Nascido em Cuiabá em 1916 este poeta. Como duvidar da força da palavra ao conhecer melhor a obra dele? É vasto o campo dos sonhos e das belas imagens, ainda que em curtas frases. Meras frases, do saber inocente do poeta,  astuto e esteta do sentir. Livro que foram retirado tais ventos: Menino do mato, edição de 2010 - Ed. LeYa.

E tantos escrevem tantas folhas, sagas de tantos livros, sem conseguir alcançar a simplicidade nobre deste poeta.

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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

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