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domingo, 6 de maio de 2012

Memorial de Aires - Machado de Assis



Trecho:

"De quando em quando, ela e o marido trocavam as suas impressões
com os olhos, e pode ser que também com a fala. Uma só vez a
impressão visual foi melancólica. Mais tarde ouvi a explicação a mana
Rita. Um dos convivas, — sempre há indiscretos, — no brinde que lhes
fez aludiu à falta de filhos, dizendo "que Deus lhos negara para que
eles se amassem melhor entre si". Não falou em verso, mas a idéia
suportaria o metro e a rima, que o autor talvez houvesse cultivado em
rapaz; orçava agora pelos cinqüenta anos, e tinha um filho. Ouvindo
aquela referência, os dois fitaram-se tristes, mas logo buscaram rir, e
sorriram. Mana Rita me disse depois que essa era a única ferida do
casal. Creio que Fidélia percebeu também a expressão de tristeza dos
dois, porque eu a vi inclinar-se para ela com um gesto do cálice e
brindar a D. Carmo cheia de graça e ternura:

— À sua felicidade.

A esposa Aguiar, comovida, apenas pôde responder logo com o gesto;
só instantes depois de levar o cálice à boca, acrescentou, em voz meio
surda, como se lhe custasse sair do coração apertado esta palavra de
agradecimento:

— Obrigada.

Tudo foi assim segredado, quase calado. O marido aceitou a sua parte
do brinde, um pouco mais expansivo, e o jantar acabou sem outro
rasto de melancolia.

De noite vieram mais visitas; tocou-se, três ou quatro pessoas jogaram
cartas. Eu deixei-me estar na sala, a mirar aquela porção de homens
alegres e de mulheres verdes e maduras, dominando a todas pelo
aspecto particular da velhice de D. Carmo, e pela graça apetitosa da
mocidade de Fidélia; mas a graça desta trazia ainda a nota da viuvez
recente, aliás de dois anos. Shelley continuava a murmurar ao meu
ouvido para que eu repetisse a mim mesmo: I can give not what men
call love."

Machado de Assis - Memorial de Aires.
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Wikipedia:
Memorial de Aires é o último romance escrito por Machado de Assis, publicado no mesmo ano de sua morte, 1908. Está organizado como uma série de entradas em um diário e, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, não tem um enredo único, mas compõe-se de vários episódios e anedotas que se interpermeiam.

Memorial de Aires, o último livro escrito por Machado de Assis. É considerado pelos críticos, como a obra mais azeda a ser escrita por ele, pois contém alguns elementos de pessimismo. O livro é uma possível continuação do livro Esaú e Jacó, pois o personagem Aires participa da história, anotando em seu caderno, tudo que se passa em sua vida; dando continuidade em Memorial de Aires em que o próprio personagem relata seu dia-a-dia em um caderno.

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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

Eliéser Baco - direitos reservados na Biblioteca Nacional