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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ouvi do vento

       Terno amigo, contou-me quando eu caminhava por ruas escuras e ele deglutia em galhos e frestas de janelas o que da vida trazia. Que uma poetisa rascunhava no chão de sua morada versos que ela queria esquecer. Paredes ainda intactas mas o chão de sua morada, devidamente impregnada com palavras duras.

Pedidos de um retorno aquilo que ela poderia ter sido em certo momento da vida. Pedidos urgentes que os descaminhos de qualquer bússola trouxesse um agir para matar um pouco dela em outro alguém. Ouvi atento, segurando os braços contra o peito, no calafrio que a voz do vento faz no pano de linho.

Por fim, pediu minha palavra, ficou apenas tecendo brisa num pequeno redemoinho junto ao muro, a me ouvir. Cabisbaixo instantaneamente precisei trazer para perto um pequeno galho caído. Mirei luminárias bem acima de minha cabeça. Disse que o tempo é maior aliado das confidências destinadas ao passado, e que o tempo que ela pedia numa bússola seria o tempo do acerto de algumas pendências. Matar um pouco do outro em nós é transtornar uma chance de algo melhor, tentei dizer mais alto. Se renovar no nado que a vida, oceano imenso, pede, é mergulhar primeiramente em si próprio e sair do outro lado, no peito ou na lágrima que alguém sinceramente derramou.

O redemoinho cessou para voltar a balançar galhos. Ouvi do vento sobre infantilidade do amor, do romantismo que pode se transbordar em falta de certa praticidade na vida contemporânea. Que a tal poetisa precisaria de minhas palavras e de meus conselhos muito próprios e cheios de identidade. Que o pêndulo igualitário e equilirado de um dizer é como uma bússula certa vezes. 

Neguei-me prontamente. Quem pode bater a porta de um estranho e dizer que foi a pedido do vento? Quem pode interferir no chão de qualquer pessoa e seus versos?

Ele bradou: o amor. O amor pode. O amor próprio, o amor por outrem. Disse eu então: Eu não sou o amor caro vento... ele retrucou instantaneamente fazendo minha nuca gelar. "Tem traços da compaixão, que é prima dos melhores sentimentos. Vá então por mim, caríssimo". E eu não fui em suma, não ainda. Irei?  

Bater a porta de uma poetisa, talvez insana, como tantos deles são... Bater e esperar que abra e me peça descabelada uma bússola, ou o chá das cinco em bandeja de prata. Irei, já sei, com um balde com pouco de cimento e direi: Concrete um pouco bem fundo no peito que passa.
Irei?
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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

Eliéser Baco - direitos reservados na Biblioteca Nacional