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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Prefácio do meu primeiro romance - Cartas no Labirinto

(Foto de: Eliéser Baco)
Escrito por Jucimara Tarricone;

Um romance labiríntico


            Em uma leitura superficial, Cartas no Labirinto talvez fosse entendido como uma retomada anacrônica do gênero epistolar, cujo auge, no século XVIII,  nos legou obras ímpares como  Les Liaisons Dangereuses (As relações perigosas), de Choderlos de Laclos, que, no Brasil, teve a magnífica tradução de Carlos Drummond de Andrade.
            A semelhança, no entanto, termina aí. Embora esse primeiro romance de Eliéser Baco também se utilize do recurso da troca de cartas entre os personagens para mostrar o embate e o desgaste de relações por vezes conflituosas e esgarçadas, a trama urdida se alimenta de outras referências.
             Constituído por vozes de diferentes acentos, o texto se estrutura em conflitos espiralados cujo maior mérito é exatamente fazer, do modelo epistolar, apenas uma das camadas que se somam às de outros suportes, como o bilhete, o poema e o teatro.
             Dessa profusão, o leitor é desafiado a esboçar, da leitura de cada substrato narrativo, as histórias que se cruzam e se retroalimentam: amigos e amantes, escritores, poetas e o próprio autor (ficcionalizado em personagem) em busca do viver ao largo da solidão e do assombro da morte.
            Manuel Antonio/Maneco; Ária; Bárbara; Joaquim e Carolina; George e Nina; Mhorgan e Judith; Mador, Adágio e Eliéser Baco: máscaras que encenam outras máscaras e aludem ao famoso mote: “a vida é um sonho”. Sonho que combina, com uma estranha harmonia, o inferno de Dante, a música de Puccini, a tragédia shakespeariana e, talvez a alusão-chave, a atmosfera dos contos de Álvares de Azevedo.
            Todavia, se o ambiente romântico envolve as escritas, essas não se realizam sem antes transformá-lo, alterá-lo para um novo contexto, para uma nova situação e identidade.
Sob este prisma, a organização do romance retoma o conceito de contemporâneo que Agamben enseja:
pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatural; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo[1].
            Assim, nas narrativas que se somam a outras narrativas, acompanhadas das mais variadas citações (de Goethe, de Sêneca....), Cartas no labirinto recupera estilos cuja qualidade maior é recriar  um universo mais fantasioso, assombroso, misterioso e lúdico  - por vezes irônico –  que só com plena consciência literária é possível proporcionar.
Por sua vez, a linguagem tenta recuperar cada vicissitude humana colocada em destaque. Assim, Maneco, da Itália, em busca de Mador, o autor de peças supostamente desaparecido, apesar da escrita formal, imprime ao seu texto pequenas doses poéticas: “Poderia terminar esta com versos de Alighieri, mas devem estar cansados de ler o mais que escrevo sem objetividade. Cansaço? Não queridos, acho que é a pena deliciando-se aos poucos com o que escorre dos lábios do âmago, incertezas, tédio, e uma pequena dose de dúvida, medo e saudade”. (...) “Volta a chover forte, eu quase me alegro quando está a chover por aqui, pois quando assim um som de celo invade aos poucos o ar. Ainda não consegui descobrir de onde vem, descobrirei. Um som limpo e calmo, quase como um ninar de mão de ninfa passeando por meus cabelos, um manso som que perpassa pelas alamedas e espinhaços, cobre o caminhar trôpego transmutando-o em mais gentil e firme. Quem dera fosse assim...é assim que ouço, é assim que abraça-me este som de celo. Quando os trovões cantam, cita mais alto a nota o celo, toca o ar com mais gratidão, com mais bravura ainda; se não fosse pelo caos das águas nas ruas, pediria que chovesse sempre”.
            A voz de Bárbara, ao contrário, é mais leve e traz, como marca, a gíria e vício de linguagem: “Como nos deixar em pânico ao fazer isso? Ninguém acreditou que pudesse fazer isso. Ninguém! Entende?” “Acho inconcebível que faça isso conosco, sabe? Pô meu, e agora?”
            Como efeito inusitado, as cartas de Adágio, escritas em italiano, cujo tom preciso, didático e pausado lembra o libreto de uma ópera.
            Esses pequenos exemplos contrastam com o livro de Mador, que aparece, aos poucos, por entre as leituras das cartas. São poemas em prosa em que o próprio autor participa de modo intenso. Aliás, também Eliéser Baco aparece como personagem e o responsável pela recolha de todas as histórias.
Nesse processo, a escrita de Eliéser (o autor ou o autor-personagem?) torna-se uma lâmina afiada: percebe-se um trabalho intenso com a estrutura narrativa, com os cortes das frases e a construção sintática e lexical a marcar cada personagem.
            Seu mote – “saúde, fraternidade e vinhos” – é colocado na voz de Maneco, talvez um alter ego ou um duplo de Eliéser Baco, assim como também Mador. Labirinto também de autorias, ou a própria morte do autor, já há muito discutido por Barthes[2].
Para quem acompanha seu blog, essas características não são novas. Antes, Eliéser Baco já há muito vem se firmando como um escritor preocupado em repensar a literatura. Cartas no labirinto é, sem dúvida, um primeiro passo para a conquista desse seu intento.

                       
                         
Jucimara Tarricone
Doutora em Letras na área de Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. É autora de Hermenêutica e crítica: o pensamento e a obra de Benedito Nunes (EDUSP/EDUFPAA, 2011), finalista do Prêmio Jabuti 2012.




[1] AGAMBEN, Giorgio. O que é contemporâneo? e  outros ensaios. Trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó/SC: Argos, 2009.

[2] Cf. BARTHES, Roland.  O Rumor da Língua. Trad. Leyla Perrone-Moisés.  São Paulo: Martins Fontes, 2004.

(Foto de: Eliéser Baco)



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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

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