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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Maio de 1968 - François Truffaut

O "caso da Cinémathèque" foi uma espécie de prólogo aos acontecimentos de Maio. Claro, só percebi isso depois, à luz dos outros eventos - mas, de fato, a nível do microcosmo, viveu-se a mesma situação: "intelectuais", contestando (a decisão governamental de se livrar de Henri Langlois, fundador e alma da Cinémathèque) desceram à rua e foram agredidos com cassetetes.
 
Os funcionários do governo fizeram com a Cinémathèque exatamente o que haviam feito no resto da França: subvencionaram e depois tentaram minar o trabalho que vinha sendo realizado. Durante a manifestação diante do palácio de Chaillot, fui agredido dessa maneira, pela primeira vez na vida - e percebi que não doía tanto assim. Eram cassetetes de borracha, ou não sei de que matéria plástica, e, num determinado momento, cheguei até mesmo a quebrar um. Ele tinha provocado muito calor na minha cabeça, mas não cheguei a sangrar.
 
Na manifestação seguinte, na rua de Courcelles, os policiais haviam sido substituídos pelos CRS. E vimos surgirem "biles", cassetetes infernais. Estávamos em 19 de março e é por isso que, para mim, a Cinémathèque representa um preâmbulo. Foi nessa ocasião que vi Daniel Cohn-Bendit pela primeira vez. Aliás, tive uma impressão bem desagradável dele. Éramos muitos a querer aparentar imparcialidade, a querer que a luta que levávamos adiante permanecesse "apolítica", pois acreditávamos que se politizássemos as coisas, Langlois não teria chance alguma de voltar à direção da Cinémathèque.
 
Quando vimos aquele rapaz ruivo trepado num poste de iluminação e nos chamando de "camaradas", perguntamo-nos quem ele era e o que estava fazendo ali, Depois, ele se instalou numa janela. Eu o achava muito metódico, muito profissional. Ele aguardava os silêncios da multidão, dos jovens do "Ocidente", e era sobretudo com estes que debatia, pois havia um certo receio de afrontamento. Penso que Cohn-Bendit interessava-se por todas as formas de contestação e tinha vindo à rua de Courcelles por causa disso, até que se tornou imprescindível, pois nos mostrava coisas que não sabíamos fazer - mas sempre com calma, com charme ao falar. Um rapaz foi preso pela polícia e, ao final da manifestação, preparávamo-nos para ir emboratranquilamente. Foi então que Cohn-Bendit discursou para nós. Ele disse: "Não partiremos enquanto o nosso camarada não for libertado."
 
De minha parte, eu pensava que o rapaz já devia estar em algum comissariado, longe dali. Mas, da mesma forma que faria mais tarde em escala bem maior, nas ruas do quartier Latin, Cohn-Bendit decidiu que a forma de luta era permanecer lá e obter a libertação do rapaz. Ele dizia coisas do tipo: "Na Bretanha, os camponeses esperaram seis horas até que libertassem um de seus camaradas. Quanto tempo aguardarão os parisienses?" Realmente foi muito hábil. Graças a ele, fomos, juntamente com alguns outros cineastas, negociar com os policiais e realmente conseguimos a libertação do rapaz - um secundarista, acho. Eu sequer sabia que se podia conseguir esse tipo de coisa. Quando perguntei quem era o rapaz ruivo que nos havia ensinado a nos defender, responderam-me: "É um cara de Nanterre..."
 
O governo percebeu rapidamente a gafe monumental que havia cometido a propósito de Langlois - e logo recuou. Claro, atualmente percebemos que aquilo foi uma lição.... Olhando a coisa com certo cinismo, pode-se dizer que aquilo nos provou que é preciso se exigir nas ruas o que não se consegue nos gabinetes.
 
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Editora Nova Fronteira, 1990.
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Foto: Eliéser Baco
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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

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