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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O limite




Beira ele então, as discórdias próprias a olhar seu reflexo.
Seu ritmo, seu som, seu desnorteio.
Cabelos grandes, orelhas quase cobertas pelos tufos todos.
Olhar cansado mira o machucado na boca.
No canto esquerdo do banheiro um livro amassado. Curto, capa simples, sem desenho ou estilo próprio. Apenas autor, título e editora.

Escova de dente arrebentada dentro da pia.
Escorre sangue do nariz, se pergunta mentalmente se pode ser mais sério.
Apenas ri do limite que está, olha os pés descalços e unhas bem cortadas.
As roupas no chão do banheiro. A latrina branca e sempre muito limpa.
As coisas todas bem mais cuidadas do que ele próprio.
O maquinário todo polido dentro da casa.

A seca na cidade. As manifestações nas ruas. Circo e pão integral para o povo. E seu sorriso aumenta gradativamente diante do espelho.
As celebridades. O aumento dos preços. A falta de ações para saúde pública, segurança pública, educação pública. A imprensa ajuda nas informações imprecisas e tendenciosas. O jornalismo tem a voz do patrão e não da verdade. Quando se olha, o globo ocular é cinza e o sorriso imenso.

O descaso consigo mesmo.
Não vota, não faz política, paga seus impostos.
Seu pai morreu na fila do hospital. Sua avó agonizou no chão de um hospital. Todos públicos. Com fé na tríade dos altos céus e na herança do povo brasileiro: sua receptividade aos estrangeiros. Todos os povos têm acesso ao país. Qualquer endinheirado estrangeiro pode abrir negócio, sonegar impostos e maltratar consumidores brasileiros.
A ira percorre o estômago e ele vomita muito. Sangue misturado ao caos da casa que não é um lar, apesar de brilhar e ter somente ao chão algumas roupas e livros.

O escárnio dos governos perante ele. O deboche, a zombaria, o caçoar, as cantigas de roda política e governamental, com versos de corrupção e esperteza. O saco roxo, polido, astuto, rico, branco, nobre, de sobrenome belo, transgênico, putrefato de valores morais. Mas que? Mesmo? O que importa é a quantidade de valores disponíveis ao comércio, eletrônico, pessoal, físico, virtual, mídia, redes, teias, estátuas, mármores, ouro, prata e escravas. Conluios, novelas, telecomunicações, discursos bem feitos por escritores fantasmas que somem nos trens, ônibus, vias, bicicletas e tribos cheias de doença, rancor e urina. Porém, com acesso ao “bolsa pilantragem”, às parcelas da Mãe Lojinha. Consumir é abanar as nádegas e deitar no leito dos políticos, todos juntos, com suas cifras na suíça, com suas empresas de fachada. Tirando as pregas do povo.

Esse curto pensamento, esse breve olhar e seu reflexo no espelho, enquanto olhava sua escova dental esparramada de tão velha, sua dificuldade de trabalhar, suas narinas cercadas por sangue e vômito. Um número, um fragmento, um desdenhado, um hipotético ser que vota, compra, trabalha espremido na sola do sapato de Deus-Tio-Avô.

Ele não sorri mais, sentindo-se cansado. A clicar mentalmente suas asneiras na próxima ação a ser curtida por muitos nas mídias nas redes na falta de vírgula de encantamento de nobreza de riqueza de petróleo de sobrenome importante e azul e seu sangue escorrerá, ainda uma vez antes d’agora.

Adquirir uma maneira de ir à desforra. Olha-se largamente sentindo-se insone. Suas orelhas cobertas pelos tufos todos. Encara-se. Reflexo, fragmento, cansaço, pia, ideia.
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Texto, foto e edição: Eliéser Baco
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Bebedouro

"Ainda não consigo ter pena quando o mal encontra em nós, bebedores de sangue, o dia da desforra. Ainda não consigo perdoar aquilo que eu nunca faria para outra pessoa com tanta frieza, dissimulação e carisma nos olhos. Está aí prontamente a distinção de parte do que fui feito nas décadas, da maré que me fez derrubar o sangue alheio na minha realidade. Sombrias formas de olhar caminhos cruzados, ácido que sai nas linhas e na voz quando o cansaço encontra a raiz para a paz momentânea, e os nossos ossos só querem ferir, proteger os nossos e ferir quem atinge ideais, história sã e a nossa verdade. Nossa realidade por vezes má, confesso"

Eliéser Baco - direitos reservados na Biblioteca Nacional